SNL - O Diabo e outras histórias
Published by Jonas Abreu February 4th, 2008 in Dicas, Livros, OpiniaoEu acredito que um bom conto seja muito mais difícil de escrever do que um bom romance.
O conto é mais curto e é necessária muita habilidade para em poucas páginas apresentar os personagens e contar a história. Normalmente bons escritores de romances não são muito bons contistas. Tolstóy é uma exceção.
Quando peguei este livro para ler, já fui com altas expectativas. Eu esperava algo no mínimo à altura de Guerra e Paz. O livro superou muito o que eu esperava.
“O Diabo e outras histórias” reune cinco contos maravilhosos, com cenas realmente marcantes (do tipo que passam meses e você ainda lembra como se tivesse visto hoje cedo) e uma grande carga emocional. Chega a ser assustadora a leitura de alguns trechos.
Embora os cinco contos sejam incriveis, os dois últimos contos (”Falso cupom” e “Depois do baile”) merecem destaque.
“Falso cupom” é uma história que começa simples. Um garoto é convencido a enganar uma vendedora pagando com um cupom falsificado (no caso, cupom é quase como um cheque) por ele. Isso começa a desencadear uma série de eventos (um mais destrutivo que o outro) que praticamente vai arrasando o modo de vida das pessoas. Até o momento (pra mim, a cena mais marcante do livro) em que uma pessoa não reage com agressividade quando é vítima do que o cupom criou. Após isso começa uma espécie de caminhada de redenção, onde todos que fizeram algo de errado devem pagar. É muito interessante o ciclo que é formado e como a história é contada.
“Depois do baile” trata da destruição da imagem que podemos ter de uma pessoa. Um jovem vai ao baile, dança a noite inteira com a garota pela qual estava apaixonado e conhece o pai dela (que aparentemente aprova as intenções do jovem). O pai dela, general do exército russo desperta nele muita adimiração. Após o baile, ele não consegue dormir e resolve passear pela noite. Ao amanhecer encontra presos sendo transportados pelo general que conhecera no baile. Não continuo pois destruiria o conto, que é muito bem narrado por Tólstoy.
É um livro que realmente me surpreendreu. Se alguém está apaixonado pela literatura russa como eu, esse livro é obrigatório.
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“Falso cupom” me fez lembra uma música do Chico Buarque chamada “O malandro (Die Moritat von mackie messer)” no ótimo album Ópera do malandro. Um malandro dá um golpe e causa uma confusão nacional. Muito legal!
Não sei se você é carioca, mas se vive no Rio, não deixe de assistir ao espetáculo “Todo o tempo do mundo”, de Celina Sodré. A peça é inspirada no “Falso Cupom, embora seja uma linguagem totalmente inovadora. Meu marido está lendo este livro de contos (só que ele está lendo em russo, para me matar de inveja…).