12 Mar

Uma constante preocupação surge entre os educadores e políticos ligados ao bem-estar social: a inclusão digital. Infelizmente o que vemos na prática esta muito além do que gostaríamos. Um exemplo é a minha cidade natal, já que Bauru (interior de São Paulo) implantou a um ano um projeto de inclusão digital com algumas características bem discutíveis. Uma revista local menciona que a Planeta Educação foi contratada por licitação para implantar o projeto Click Inclusão em todas as 15 escolas municipais de Ensino Fundamental de Bauru, composto de 284 computadores e 18 títulos de softwares educacionais e beneficia dez mil alunos. [1]
Duas coisas me chama a atenção na matéria: primeiro a imagem de alunos utilizando o Microsoft Word e em seguida a seguinte declaração de uma professora: “Hoje faço uso de recursos (Word, jogos, Internet, Power Point) que nunca pensei que pudessem auxiliar no processo de ensino e aprendizagem.”.
Ou seja, a “inclusão” digital em Bauru está ocorrendo através de softwares proprietários, mas não só isso ela está treinando os usuários a utilizar apenas determinados programas. Isso porque os alunos e professores não estão aprendendo a parte conceitual, eles estão aprendendo a operar aplicativos da Microsoft. Isso pode parecer um pouco estranho para os leitores de blog, mas existe uma grande diferença. Nós computólogos e programadores em geral temos, normalmente, a facilidade em aprender a utilizar softwares por mera comparação enquanto que muitas outras pessoas, por outro lado, tem dificuldade usar o Firefox após ter aprendido a usar o Internet Explorer. Por que isso ocorre? Pelo simples fato de que devemos ensinar a utilizar um navegador de internet e não um determinado software. Ou seja, devemos focar no conceito e não o produto na hora de ensinar.
Meu problema não é com software proprietário (apesar de que eu particularmente prefiro os livres), mas com o fato de que a inclusão digital deve ser feita com cuidado. Não basta fornecer o hardware e o software, esse projetos precisam ensinar os conceitos por trás do uso do computador para que não tenhamos uma geração que só sabe usar determinados softwares. A professora da matéria obviamente não tem culpa, até porque ela é uma aluna tanto quanto os outros. Esses projetos precisam fornecer uma formação forte para os professores, para que os mesmos passem o conhecimento de forma correta aos alunos. Eles devem se perguntar também se o ensino está ou não focado no software.
Ou seja, projetos como este não promovem a inclusão digital que gostariam, promovem sim a exclusão digital. O que eles fazem é formar mão-de-obra barata capaz de operar um computador da forma que eles julgam necessário. Assim, empresários podem ditar o texto para um estagiário que recebe um salário mínimo que o mesmo irá digitá-lo no Word. A exploração do trabalho humano apenas muda de forma mas não muda sua crueldade intrínseca.
Atualmente vemos muito discussões sobre a OLPC permitir ou não o Windows no XO. Apesar de ser uma discussão válida por motivos econômicos e filosóficos (como provavelmente Stallman nos lembraria) não basta pensar nisto. Existe um assunto mais profundo do que esse que aborda como esses laptops serão usados e isso é válido para todos os projetos de inclusão digital. Devemos ensiná-los a utilização dos sistemas de forma conceitual em vez de prende-los a determinada empresa.
[1] Bauru comemora primeiro ano de implantação do projeto Click Inclusão nas escolas, Revista Atenção, Bauru, 31 de Dezembro de 2007, número 285
Foto original por Bayat.
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6 Responses for "Inclusão ou Exclusão Digital?"
Concordo com você, que inclusão é essa que treina pessoas a usar só uma determinada ferramenta?
Lembrando que essa deficiência em não ensinar o conceito e sim só treinar a usar a ferramenta é independente do Word ou do Openoffice, pode acontecer nos dois casos..
sem contar que os canditatos a inclusão digital estão sendo treinados para operar um software que provavelmente não poderão comprar.
Não poderão comprar os softwares que estão acostumados a usar e conseqüentemente partirão para ilegalidade (pirataria).
Além da falta de esclarecimento, há a questão da cultura. Muitos não querem um software que atendam suas necessidades, e sim, o que seja o “melhor”.
Um exemplo disso é o Photoshop. Esses usuários não usam nem metade da capacidade, mas não se satisfazem enquanto não o tiverem, pois “todo mundo usa”, então é o melhor.
Olá a todos!
A deficiência é realmente na didática darkstrikerd e não no software. Obviamente um bom professor poderia ensinar com o Word como utilizar de forma genérica como se utiliza um editor de textos. Mas nem mesmo escolas com renome nacional e várias certificações do MEC o fazem. Neste caso é ainda pior, os professores também são alunos e ao meu ver a didática do projeto peca neste sentido.
Rafael, você falou certo e o Edton foi direto ao cerne da coisa. São pessoas humildes que normalmente não tem computador e se ocorrer a inclusão digital, como por exemplo, com computadores a preços populares e facilidades de pagamento, então a primeira coisa que será feita é instalar software pirata para “poder” atender as necessidades.
Como o Edton disse, muito associam preço com qualidade. Isso não é verdade em muitas vezes. Já vi softwares pagos muito ruins. Em compensão o melhor navegador, na minha opinião, é open-source e multiplataforma.
Obrigado a todos pela visita!
Concordo com os comentários todos. Particularmente, no que diz respeito ao amplo uso de softwares piratas vindo desse problema.
Apenas queria adicionar algo sobre o XO. O OLPC mais famoso opera (pelo menos operava até o FISL passado) com Fedora e tinha mesmo como objetivo ensinar crianças a aprenderem sobre computação.
Além de chamar atenção porque é bonitinho e ter N recursos multimedia, ele conta com processadores de texto e afins livres e configuráveis e, surpreendentemente, com o Squeak - ambiente de desenvolvimento para Smalltalk. Se as crianças que usarem o XO forem ensinadas a programar, ainda que mostly visualmente, eu acho que ele será mesmo uma boa coisa e se aproximará mais de uma ferramenta de inclusão digital.
Concordo, em tudo o que diz,
A inclusão deve ser de fato digital, como você menciona as pessoas,
tem que ter o conceito do uso, ter conhecimento das diferenças, e descobrir que exitem Editores de Texto, e nao Word, Navegadores e não o internet Explorer, e esse conhecimento e decida o que vai usar.
Mas veja como é um processo um tanto quanto complicado, quando o que se vê por ai, seja em sites, a internet em geral, em revistas que se dizem especializadas, como a INFO ter um Artigo como na edição deste mês, com o seguinte comentário, sobre softwares de Finanças Pessoais;
“A interface é bem bagunçada, como a maioria dos softwares livres”
um comentário ao meu ver, infeliz pois o autor não conhece ou não usa Software Livre, bom talvez nem conheça mais do que três ou quatro.
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