10 Oct

Somos máquinas?
O termo “inteligência artificial” surgiu pois os pesquisadores da área procuravam meios de simular o pensamento humano em computadores. Até que faz sentido chamar um algoritmo de “algoritmo de inteligência artificial” se dermos bastante ênfase no “artificial” e se o objetivo do algoritmo for, mesmo, simular uma inteligência. Mas dizer se o objetivo de um algoritmo é simular a inteligência depende da nossa definição de inteligência. Pela introdução que fiz, nota-se que não concordo em chamar os algoritmos desenvolvidos nessa área de “algoritmos de inteligência artificial”.
Muitas pessoas, inclusive cientistas da área, tendem a esquecer o “artificial”, dizendo que as máquinas podem ser realmente inteligentes. Por exemplo, John McCarthy, uma das sumidades na área, acredita que computadores podem, um dia, ser auto-conscientes (vide inteligência artificial forte no artigo da Wikipédia).
O uso de termos como “inteligência”, “aprendizado” e “cognição” para computadores não faz sentido, se definirmos tais termos como os processos que ocorrem em nosso cérebro quando descobrimos algo. Isso porque o computador é puramente determinístico, enquanto que nosso cérebro não o é. O aprendizado humano envolve criatividade, algo que não é possível de existir num computador. O máximo que se pode fazer num computador é gerar aleatoriedades (na verdade, somente com um computador, pseudo-aleatoriedades).
Na verdade, existe toda uma discussão sobre o determinismo ou não-determinismo do nosso pensamento (vide a Wikipédia, novamente), mas, como se pode notar, duvido do determinismo. O determinismo é algo ainda por provar, mas que serve de base para toda nossa ciência. Se ele estiver certo, poderemos, sim, ter computadores inteligentes. Mas isso vai significar que não somos inteligentes, apenas marionetes da lei da causa e efeito. Será que somos?
Este artigo visa apenas a mostrar dar uma introdução à minha opinião sobre o assunto, que é parecida com a de Valdemar Setzer (tive aula com ele).
Edit: criei um tópico no nosso fórum para discutirmos mais sobre o assunto. Creio que há bastante o que discutir… Comentem! :)
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10 Responses for "Inteligência Artificial"
Luiz, eu sou de um grupo de cognição e vida artificial na Poli (Eng. Elétrica). Embora seja na poli, o grupo é multidisciplinar.
O Setzer é totalmente contra a corrente principal, sabe-se lá os motivos (seria como se hoje ele fosse a favor do criacionismo no lugar da teoria da evolução, uma questão de crença apenas).
A sua afirmação “O aprendizado humano envolve criatividade, algo que não é possível de existir num computador” já foi bastante discutida e não faz muito sentido, a menos que você descreva o que é criatividade. Você é capaz de olhar uma pintura e dizer “O artista foi 89% criativo”?
Também dizer que o cérebro não é determinista é um erro, não se pode afirmar isso (nem de longe). O que se tem são evidências mostrando justamente o contrário, principalmente se você ler sobre estudos que mostram como é possível, em algumas situações, prever a decisão que alguém vai tomar ANTES mesmo da pessoa ter consciência da própria escolha.
Outras áreas também mostram que o processo de escolha (de um número, por exemplo) pode parecer puramente “aleatório” para o indivíduo, quando na verdade é determinístico.
E para finalizar, defina “aleatório” :-)
Olá, Cesar
Eu estudei com o Setzer e sei os motivos pelos quais ele é contra a corrente principal. Não se tratam de crenças, mas sim de fatos que (diz ele) podem ser constatados por cada um de nós. Você já leu algum artigo dele?
Eu sei que existem diversos problemas com definições, ainda mais nesse tópico. Disse “criatividade” num senso-comum. Não é meu objetivo, aqui, definir o que é criatividade nem aleatório, apenas comentar o assunto. Inclusive, abri um tópico no fórum aqui justamente para podermos dar continuidade à discussão. Mas, respondendo, para mim (ou seja, não assumo como verdade absoluta) um fenômeno é dito aleatório quando não se consegue prever com exatidão quando e como ele ocorre. O que não implica que ele não seja determinístico, na verdade. Pode ser que seja, mas a relação causa-efeito seja desconhecida.
Sobre o cérebro ser ou não ser determinístico, não tenho como provar mas, como disse no post, não creio que seja. Eu não afirmei, apenas dei minha opinião. E tenho esta opinião pois constato fatos que me levam a tal conclusão.
Li uma reportagem na Superinteressante a respeito da previsão de decisões e achei um absurdo chegarem àquela conclusão. Pode ser (e é bastante provável) que a reportagem esteja incompleta em pontos importantes, mas se for aquilo mesmo, não se pode concluir do experimento que somos apenas guiados pelas relações de causa e efeito…
Obrigado pelo comentário!
Muito bom o post!
Apenas como curiosidade, há uma definição que diz que a
inteligência artificial é uma área do conhecimento humano que visa fazer com
que um computador haja como um ser humano. Uma crítica interessante à ela, muitas vezes usada:
Um computador dotado de inteligência artificial deverá
responder a seguinte pergunta: “Quanto vale 1236*56,254^0.6?” ? Segundo essa
definição, acho que não…mas há controvérsias…
Sobre a definição de aleatoriedade, creio que trata-se de algo extremamente
complexo. Dois exemplos que gosto:
1) Lanço uma moeda. A face voltada para cima será aleatória? Bem, talvez seja
possível de calcular a força com que eu jogo a moeda, a direção/força do vento e
outros fatores, de modo que saberei o resultado antes mesmo de lançá-la. Se
isso não parece realístico, podemos pensar em um equipamento que lança a moeda no vácuo, ou em um meio termo entre esses dois cenários.
2) Lanço uma moeda. Olho a face voltada para cima. Pergunto então a um amigo, que não viu a moeda, qual o resultado do lançamento. Não é estranho que o resultado seja aleatório para ele e não para mim?
Por esses e outros motivos, acho que aleatoriedade é um conceito pessoal, e não simplesmente uma propriedade de alguma situação. Ela depende do observador desta situação. Assim, não entendo o que quer dizer que o cérebro é determinístico ou não. Na verdade, acho que tudo o que a gente desconhece consideramos aleatório (como mostra o ex 2). Não consigo imaginar algo que podemos dizer que seja aleatório por si só.
E um último comentário é de como acho que nomes fazem toda a diferença, e muitas vezes são usados de modo a criar altas expectativas e impressionar. Por exemplo, o que é chamado de “aprendizagem”, em inteligência computacional, em geral não é nada mais do que “estimação” para um estatístico, mas é muito mais atraente. Redes neurais acho que é outro exemplo claro disso. E inteligência artificial vai pelo mesmo caminho.
Olá, Rafael
Muito interessantes seus exemplos! Não conhecia essa definição de Inteligência Artificial, mas ela tem cara de que foi feita por alguém da linha de IA forte (os que acreditam que máquinas podem ser inteligentes).
Sobre a aleatoriedade, minha “definição” de aleatório inclui esses casos, apesar de não ter deixado isso claro, uma vez que o conhecimento do fenômeno pode variar de pessoa para pessoa. Mais um exemplo: uma pessoa pode achar que o programa que ela está usando trava aleatoriamente, enquanto que, para um desenvolvedor do programa, as travas fazem sentido.
Realmente os nomes fazem muita diferença. E agora que você comentou isso percebi que até nisso as áreas acadêmica e comercial são parecidas. Quando tem um nome imponente, as pessoas dão mais importância.
Obrigado pelo comentário!
Você pode argumentar que não é possível haver uma IA, pois a inteligência é, suportamente não-determinística, logo ela não poderia funcionar “em cima” de um sistema determinístico.
Porém, o universo inteiro pode ser determinístico, talvez absolutamente todas as acontecimentos sejam baseados em leis, desta forma, seriamos apenas softwares vagabundos sendo executados no hardware do universo.
Mas, talvez o universo não seja determinístico, talvez essa ordem aparente seja apenas resultado de uma quantidade muito grande de eventos aleatórios e o resultado da combinação deles convirja para algo aparentemente previsível.
Imagine que um jogardor não viciado jogue uma centena de moedas não viciadas para o alto, não podemos prever o resultado de uma moeda isolada, mas acho que todos dariam um mesmo palpite se perguntássemos: qual a porcentagem de caras?
Tudo isso num universo não viciado, é claro. :)
Ah, já ia esquecendo: um universo não-determinístico talvez explique o comportamento mais do que estranho de muitos computadores que deveriam ser determinísticos.
Olá, Max.
Muito interessante seu comentário! Realmente, existem essas possibilidades. Não sei se algum dia provaremos que alguma delas é verdade.
Essa idéia de que o universo pode ser resultado de uma quantidade muito grande de fenômenos aleatórios parece se encaixar com a física quântica, pelo que eu sei.
Por causa da física quântica, também, o universo não pode ser determinístico. Ou a física quântica ou o determinismo estão errados.
Já os computadores, esses são determinísticos, sim. Só os programadores que escrevem os bugs pra eles que não são. :)
Obrigado pelo comentário!
Olá Luiz,
Se o universo fosse determinístico, isso não entraria em conflito com a física quântica, vou tentar explicar.
De acordo com a quantica têm duas coisas que normalmente levam as pessoas a considerar a possibilidade de o universo ser não-determinístico:
* O princípio da incerteza;
* A abordagem estatística;
A abordagem estatística é consequência do princípio da incerteza, pois existe uma limitação física que impede que a gente conheça todas as variáveis do universo.
Supondo que o universo obedeça a certas regras, os físicos bolaram modelos estatísticos para prever o comportamento das partículas. Logo não da pra prever o futuro com exatidão e concluem que o universo é não-determinístico.
Mas quase todos esquecem de uma coisa importante, o universo pode sim ser determinístico, tento estados bem definidos que só variam de acordo com leis rígidas e algumas dessas leis implicam que observadores de dentro do universo terão apenas informações limitadas do estado do universo.
Só para constar: eu não sei se o universo é ou não determinístico e não quero escolher nenhuma das alternativas.
Só mais uma coisa, não faz sentido falar que um modelo físico está certo ou errado, pode ser que alguns modelos levem em consideração coisas falsas e mesmo assim estejam corretos em muitas situações.
O exemplo clássico é a física de Nweton, que é usada para fazer carros até hoje.
Olá, Max
Obrigado pela explicação. Não sabia exatamente porque a física quântica utilizava o princípio da incerteza. Sabendo isso, concordo que a física quântica não acaba com a possibilidade de o universo ser determinístico. Isso é até um exemplo do que já foi comentado acima sobre a definição de “aleatório”.
Sobre a corretude de um modelo físico, você também tem razão. O erro sobre a física quântica se propagou :P
Muito obrigado pelos comentários!
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